Era um fim de noite estranho. O vento trazia o cheiro do medo, a lua acobertada por densas nuvens compactuava com uma sinistra escuridão. Deitado em sua cama, Héliote suava desesperadamente inquieto com o sonho que o perturbava naquela longínqua madrugada.
Os primeiros raios de sol que atravessavam a janela penetravam em uma cama vazia. Héliote estava esparramado ao chão, meio zonzo com o despertar e de olhos lacrimejantes diante de tanta luz, que por sinal ele odiava. Partiu em sua jornada normal. Logo pela manhã foi para o trabalho, saia somente as 18h, logo após ia para aula da faculdade. Costumava chegar a sua casa às 23h, incondicionalmente cansado. Pra completar ainda tinha que organizar materiais para o trabalho e responder alguns exercícios da faculdade. Uma rotina estressante que logo foi sendo absorvida e tornando-se natural. Em meio a tantos afazeres antes de dormir, Héliote ainda arrumava tempo para sentar a beira de sua cama com os olhos a fitarem a noite, às vezes estreladas, em longas e arrastadas madrugadas. Sempre em companhia do seu violão, caderno e caneta. Tinha ali o seu momento, era como se deixasse de fazer parte do mundo e penetrasse em um exclusivamente seu, em meio aos seus desconexos pensamentos ocultos.
“ Que o clarear do sol que virá, aqueça o meu peito gélido e me afaste dessa claustrofóbica sensação de vazio e solidão”
Assim ele finalizava mais um de seus poemas. Após arrumar suas coisas e aprontar-se para dormir, quis dar uma última olhada na noite estrelada. A busca pela lua foi sem sucesso, ela estava coberta por nuvens. No entanto foi algo diferente que chamou a sua atenção. Uma estrela de brilho diferente, mais intenso, chegando quase a ser hipnotizador. Ao mesmo tempo a cabeça de Héliote começou a doer de forma desumana, como se estivessem a penetrar em seu cérebro um objeto cortante que o perfurava lentamente. Héliote morava sozinho em um apartamento, e seus gritos de dor foram abafados pelas grossas paredes de seu quarto. Sem mais forças para resistir a tamanho sofrimento, caiu ao chão inconsciente. Voltava ele a suar e a ter o mesmo sonho da noite anterior. Felizmente era sexta-feira.
10:00 am, marcava o despertador. Era sábado, dia de descanso. Héliote levantava vagarosamente do chão e tratava de recompor-se ir ao encalço de sua comida matinal. Péssimo cozinheiro, sobrevivia sozinho graças aos produtos industrializados que geralmente ficavam prontos em minutos. Ainda a terminar o café da manhã o seu celular toca. Era um amigo o lembrando que ele deveria comparecer em um almoço de aniversário. Feliz com a notícia, pois não precisaria pensar no que fazer para comer, Héliote pega o seu carro e segue em rumo à comida grátis e um pouco de diversão.
Bebidas, música alta, mulheres e muita bagunça. A casa de Marcos, seu amigo de infância, era tudo que ele precisava para relaxar. Em rodinhas de amigos e conversas bobas, Héliote deparava-se com uma de suas cenas favoritas. A doce visão da mais bela mulher que ele já vira, Melissa. Em sua mente era como se ela viesse a caminhar em uma passarela, trombetas ao lado a tocar, passarinhos a cantar e ela a sorrir. Tal visão do paraíso foi desgraçadamente desfeita, pois logo em seguida o seu namorado, Vitor, apareceu e Héliote teve que voltar a concentrar-se nas conversas bobas dos amigos.
Melissa e Vitor eram dois médicos, conheceram-se na faculdade junto com o Marcos. Formaram-se juntos. Simpáticos e lindos, eram queridos por todos na casa, até mesmo por Júlia. Uma garota inteligente, de cabelos loiros e um belo corpo. Facilmente reconhecida por seu belo sorriso e personalidade forte. Ela era amiga de Héliote há muitos anos, assim como Marcos - alguns amigos já comentavam que ela distribuiria olhares apaixonados a Héliote, mas isso nunca foi comprovado -, eram um trio curioso. Amigos de infância, nascidos na mesma cidade, no mesmo dia, com um ano de diferença de um para o outro. Primeiro nasceu Marcos, depois Júlia e por último Héliote. Ambos órfãos aos 7 anos e apoiados um ao outro desde então.
Variações de um mesmo tema
quinta-feira, 22 de julho de 2010
02 - A festa
O sábado corria tranquilo, com muita comida, bebidas e diversão. Todos a comemorar o aniversário de Vitor, que agradecia ao Marcos por ter cedido sua casa para a festa. Um pouco embriagado, mas, animado em meio a tanta bagunça, Vitor propõem aos amigos terminar a festa na casa da praia dos seus pais, que estavam viajando para o exterior. Bebidas no carro e malas prontas. Todos pegavam os seus carros e dirigiam-se para iniciar a tal festa na praia.
A noite ia chegando e a beira da piscina Júlia, Héliote e Marcos deparavam-se sentados com os pés na água e braços esticados como apoio para trás. A conversar sobre o tempo, sobre o passado. A vida havia tomado caminhos diferentes para eles, Marcos aos 10 anos foi adotado por um casal de médicos, aos 17 já estava iniciando a sua faculdade na mesma área. Júlia foi adotada aos 12 anos por um casal de executivos, estava no último ano da faculdade de Administração. Héliote por sua vez não teve tanta sorte quanto os amigos. Passou toda sua infância e metade da adolescência no orfanato. Através de sua força de vontade e pequenas oportunidades iniciou sua carreira na área tecnológica, aos 18 anos serviu à marinha. Não tardou para que fizesse parte de um pequeno grupo tático. Desdobrando-se humanamente, ainda arruma tempo para terminar o seu curso de Engenharia.
“nós nunca iremos nos separar, eu sempre vou cuidar de vocês”, relembrava Júlia dos dizeres de um pequeno e inocente Marcos. Todos sorriam naquele clima de saudosismo.
- Bem, acho que é hora de irmos pra festinha na praia, mas antes posso conversar um pouco com você Marcos. Dizia Héliote, enquanto olhava para o sol se pondo.
Júlia foi arrumar suas coisas e deixou os rapazes a conversarem. Héliote queria saber sobre suas fortes dores de cabeça, queria a opinião de Marcos. Mas pra sua surpresa, encontrou um semblante de espanto e incompreensão no rosto do amigo após explicar o que havia lhe acontecido. Marcos deparava-se com o mesmo problema e inexplicavelmente, acontecido no mesmo dia.
Os amigos deixaram a conversa ali, pois Júlia trazia em sua volta o seu belo sorriso e a empolgação com um violão na mão. Ela adorava as canções de Héliote e sabia que a festa na praia sem suas músicas não seria a mesma cosia. Todos se arrumaram e saíram para a praia.
Alguns dentro da casa, outros na areia da praia. Todos muito sorridentes e aparentemente bêbados. Quando os três chegaram, Júlia com o violão na mão, todos resolveram fazer a fogueira e reunir-se na areia. Em uma daquelas situações constrangedoras e inegavelmente difíceis de sair. O tímido Héliote teve que revelar aos amigos os seus dons artísticos. Com a voz embargada e um tanto nervoso, puxou os primeiros acordes conhecidos por todos.
O violeiro logo foi se soltando e envolvendo os amigos com canções que ele mais gostava, de olhos fechados nem percebia os olhares apaixonados a sua volta ao cantar:
“A madrugada sintoniza frases feitas, pensamentos, sentimentos e me leva até você.
Abro a janela, olho pra lua. Sinto tua presença, minha sentença um condenado a amar você...
No meu mundo o teu sorriso é o meu sol. Nos teus braços é o mundo que eu quero estar.
O meu jeito sem juízo, com o seu jeito bem mais tímido é a combinação do que é amar. (...)”
Era como se ele soubesse o que ela sentia, estando tão próxima e ao mesmo tempo tão longe. Enquanto isso, os casais se abraçavam e apreciavam o clima romântico, e ela, com os joelhos curvados e abraçados, baixava a cabeça e deixava uma lágrima rolar.
Héliote não havia se dado conta do efeito que causará nos casais e principalmente nela. Era hora de finalizar o show melódico, e partir para canções um pouco mais agitadas.
A noite ia chegando e a beira da piscina Júlia, Héliote e Marcos deparavam-se sentados com os pés na água e braços esticados como apoio para trás. A conversar sobre o tempo, sobre o passado. A vida havia tomado caminhos diferentes para eles, Marcos aos 10 anos foi adotado por um casal de médicos, aos 17 já estava iniciando a sua faculdade na mesma área. Júlia foi adotada aos 12 anos por um casal de executivos, estava no último ano da faculdade de Administração. Héliote por sua vez não teve tanta sorte quanto os amigos. Passou toda sua infância e metade da adolescência no orfanato. Através de sua força de vontade e pequenas oportunidades iniciou sua carreira na área tecnológica, aos 18 anos serviu à marinha. Não tardou para que fizesse parte de um pequeno grupo tático. Desdobrando-se humanamente, ainda arruma tempo para terminar o seu curso de Engenharia.
“nós nunca iremos nos separar, eu sempre vou cuidar de vocês”, relembrava Júlia dos dizeres de um pequeno e inocente Marcos. Todos sorriam naquele clima de saudosismo.
- Bem, acho que é hora de irmos pra festinha na praia, mas antes posso conversar um pouco com você Marcos. Dizia Héliote, enquanto olhava para o sol se pondo.
Júlia foi arrumar suas coisas e deixou os rapazes a conversarem. Héliote queria saber sobre suas fortes dores de cabeça, queria a opinião de Marcos. Mas pra sua surpresa, encontrou um semblante de espanto e incompreensão no rosto do amigo após explicar o que havia lhe acontecido. Marcos deparava-se com o mesmo problema e inexplicavelmente, acontecido no mesmo dia.
Os amigos deixaram a conversa ali, pois Júlia trazia em sua volta o seu belo sorriso e a empolgação com um violão na mão. Ela adorava as canções de Héliote e sabia que a festa na praia sem suas músicas não seria a mesma cosia. Todos se arrumaram e saíram para a praia.
Alguns dentro da casa, outros na areia da praia. Todos muito sorridentes e aparentemente bêbados. Quando os três chegaram, Júlia com o violão na mão, todos resolveram fazer a fogueira e reunir-se na areia. Em uma daquelas situações constrangedoras e inegavelmente difíceis de sair. O tímido Héliote teve que revelar aos amigos os seus dons artísticos. Com a voz embargada e um tanto nervoso, puxou os primeiros acordes conhecidos por todos.
O violeiro logo foi se soltando e envolvendo os amigos com canções que ele mais gostava, de olhos fechados nem percebia os olhares apaixonados a sua volta ao cantar:
“A madrugada sintoniza frases feitas, pensamentos, sentimentos e me leva até você.
Abro a janela, olho pra lua. Sinto tua presença, minha sentença um condenado a amar você...
No meu mundo o teu sorriso é o meu sol. Nos teus braços é o mundo que eu quero estar.
O meu jeito sem juízo, com o seu jeito bem mais tímido é a combinação do que é amar. (...)”
Era como se ele soubesse o que ela sentia, estando tão próxima e ao mesmo tempo tão longe. Enquanto isso, os casais se abraçavam e apreciavam o clima romântico, e ela, com os joelhos curvados e abraçados, baixava a cabeça e deixava uma lágrima rolar.
Héliote não havia se dado conta do efeito que causará nos casais e principalmente nela. Era hora de finalizar o show melódico, e partir para canções um pouco mais agitadas.
03 - A trindade
Após aquele fim de semana os amigos custaram a se reunir. Héliote acarretado de serviço e atividades da faculdade. O passar dos meses arrastaram-se tenebrosamente estressantes. Já estava difícil lidar com uma rotina enfadonha nas forças militares. Haviam mudado Héliote de função, o que lhe desagradará profundamente. Acostumado a lidar com sistemas de inteligência e alta complexidade, se viu perdido em passar as suas manhãs e tardes cuidando de armamentos e antiguidades da marinha.
A ponto de pedir dispensa, viu-se obrigado a conversar com o seu superior Capitão. Já não vendo mais razões para continuar em um serviço que estava a lhe desagradar tanto, Héliote chegou a acreditar e a cogitar a possibilidade de abandonar sua brilhante carreira militar. Mera ilusão.
O seu superior já esperava tal reação e apenas aguardava o momento exato para uma conversa a portas fechadas com Héliote.
Era um fim de tarde, sexta-feira. Passando por um beco escuro e sombrio achava-se a sala do Capitão de Operações Especiais. Sabendo da ânsia por desafios de seu oficial. O Capitão revelou a existência de uma organização minúscula e secreta dentro do militarismo, chamava-se Trindade. Uma organização de inteligência e espionagem, comum aos três poderes militares, assim prosseguia o Capitão a dizer.
- Tem interesse em fazer parte dela tenente? O Capitão agora olhava Héliote nos olhos.
- Senhor, como posso ser indicado para algo tão secreto? Tudo que vim fazendo nos últimos tempos foi cuidar de armas. Héliote ainda não conseguia entender o motivo para tal convite, a razão para algo tão repentino.
- Não se faça de tolo tenente, sabe muito bem das suas participações nas últimas missões. Há muito tempo você vem sendo observado e cogitado. Estes últimos meses foram um teste de paciência, mas a opção é sua. O que me diz tenente? O clima ficava cada vez mais pesado na sala abafada e parcialmente escura.
- O que eu preciso fazer para entrar? Héliote mesmo sem entender não conseguia resistir à idéia de algo tão desafiador.
- Você terá que mostrar ser digno. Amanhã apresente-se as 08h da manhã para uma entrevista.
- Entrevista senhor?
- Sim tenente. Encerramos nossa conversa por aqui. Dispensado.
Héliote não conseguia entender qual a razão para existir uma entrevista, mas sabia que tratava-se de algo sigiloso e aparentemente muito importante. Mesmo sem tantas informações aguardava ansioso com a chegada do novo dia.
No dia seguinte Héliote apresentava-se no horário previsto. Para sua surpresa, foi conduzido a uma sala da qual nunca tinha sequer ouvido falar dentro de sua unidade. A placa na porta com os dizeres, “Só os fortes sobrevivem”. Ao adentrar na sala, mais surpresa. Tratava-se de um auditório, e nele, existiam cinco aspirantes almejando sua entrada na Trindade.
Em requintes de etiqueta militar, os jovens tenentes batiam continência para a entrada do coronel Teodor.
- Todos os cinco aqui presentes fazem parte de equipes de inteligência em seus batalhões e ao longo do tempo vem demonstrando muita competência em suas missões. Através de votações secretas vocês foram escolhidos para fazer parte de um sistema diferenciado. Que age de forma singular dentre as forças armadas. Fazemos parte de um serviço de inteligência e infiltração. Depois de hoje suas vidas receberão novos sentidos para este país. Suas carreiras como militares serão aparentemente encerradas. No entanto, estarão a serviço de algo maior. Terão seus dias aparentemente livres, serão desligados de seus batalhões e equipes táticas, servirão apenas a nós, a nossa causa. Suas novas missões serão repassadas por suas novas equipes. E quando mostrarem-se dignos, entenderão um pouco mais sobre esta organização. No mais, estão dispensados. Encerrava o coronel com o seu discurso.
Os cinco oficiais estonteados com tantas informações novas e vagas, caminhavam para mais uma nova sala até então desconhecida.
A ponto de pedir dispensa, viu-se obrigado a conversar com o seu superior Capitão. Já não vendo mais razões para continuar em um serviço que estava a lhe desagradar tanto, Héliote chegou a acreditar e a cogitar a possibilidade de abandonar sua brilhante carreira militar. Mera ilusão.
O seu superior já esperava tal reação e apenas aguardava o momento exato para uma conversa a portas fechadas com Héliote.
Era um fim de tarde, sexta-feira. Passando por um beco escuro e sombrio achava-se a sala do Capitão de Operações Especiais. Sabendo da ânsia por desafios de seu oficial. O Capitão revelou a existência de uma organização minúscula e secreta dentro do militarismo, chamava-se Trindade. Uma organização de inteligência e espionagem, comum aos três poderes militares, assim prosseguia o Capitão a dizer.
- Tem interesse em fazer parte dela tenente? O Capitão agora olhava Héliote nos olhos.
- Senhor, como posso ser indicado para algo tão secreto? Tudo que vim fazendo nos últimos tempos foi cuidar de armas. Héliote ainda não conseguia entender o motivo para tal convite, a razão para algo tão repentino.
- Não se faça de tolo tenente, sabe muito bem das suas participações nas últimas missões. Há muito tempo você vem sendo observado e cogitado. Estes últimos meses foram um teste de paciência, mas a opção é sua. O que me diz tenente? O clima ficava cada vez mais pesado na sala abafada e parcialmente escura.
- O que eu preciso fazer para entrar? Héliote mesmo sem entender não conseguia resistir à idéia de algo tão desafiador.
- Você terá que mostrar ser digno. Amanhã apresente-se as 08h da manhã para uma entrevista.
- Entrevista senhor?
- Sim tenente. Encerramos nossa conversa por aqui. Dispensado.
Héliote não conseguia entender qual a razão para existir uma entrevista, mas sabia que tratava-se de algo sigiloso e aparentemente muito importante. Mesmo sem tantas informações aguardava ansioso com a chegada do novo dia.
No dia seguinte Héliote apresentava-se no horário previsto. Para sua surpresa, foi conduzido a uma sala da qual nunca tinha sequer ouvido falar dentro de sua unidade. A placa na porta com os dizeres, “Só os fortes sobrevivem”. Ao adentrar na sala, mais surpresa. Tratava-se de um auditório, e nele, existiam cinco aspirantes almejando sua entrada na Trindade.
Em requintes de etiqueta militar, os jovens tenentes batiam continência para a entrada do coronel Teodor.
- Todos os cinco aqui presentes fazem parte de equipes de inteligência em seus batalhões e ao longo do tempo vem demonstrando muita competência em suas missões. Através de votações secretas vocês foram escolhidos para fazer parte de um sistema diferenciado. Que age de forma singular dentre as forças armadas. Fazemos parte de um serviço de inteligência e infiltração. Depois de hoje suas vidas receberão novos sentidos para este país. Suas carreiras como militares serão aparentemente encerradas. No entanto, estarão a serviço de algo maior. Terão seus dias aparentemente livres, serão desligados de seus batalhões e equipes táticas, servirão apenas a nós, a nossa causa. Suas novas missões serão repassadas por suas novas equipes. E quando mostrarem-se dignos, entenderão um pouco mais sobre esta organização. No mais, estão dispensados. Encerrava o coronel com o seu discurso.
Os cinco oficiais estonteados com tantas informações novas e vagas, caminhavam para mais uma nova sala até então desconhecida.
04 - A entrevista
Héliote foi acompanhado pelo capitão Gonçalves, uma lenda dentre os fuzileiros e seus feitos em operações da marinha.
- Você agora será classificado como um civil. Sua primeira tarefa é infiltrar-se na empresa de engenharia Ohmega. Eles estão querendo candidatos para estágio. Trata-se de uma empresa muito conceituada e formal, que prima acima de tudo por um profissional competente. Sua primeira tarefa é impressionar o corpo seletor da entrevista e garantir a sua entrada. Após isso você receberá novas instruções. Não esqueça, eles são altamente criteriosos e buscam um profissional diferenciado. Elaboramos pra você um currículo com competências que podem ser comprovadas, caso queiram investigar. A sua entrevista é na segunda as 07h da manhã, esteja apresentável. Dispensado tenente.
Héliote fitava em sua casa o celular, relógio, caneta e novos óculos que recebera dos membros da Trindade. Ainda não havia processado muito bem tanta agitação e novidade, mas uma coisa era certa. Monótona certamente não seria mais a sua vida.
Na manhã de segunda Héliote apresentava-se na empresa Ohmega. Mais de 50 candidatos a brigar por uma única vaga. Todos a usarem terno e gravata. A maior formalidade possível. “esteja apresentável”, lembra-se Héliote dos dizeres do capitão, no entanto o máximo que conseguiu foi uma calça jeans com uma camisa pólo. Infelizmente o jovem aspirante não era o cara mais ligado em estética.
Os olhares cortantes e desdenhosos condenavam o candidato de trajes mais simples. Mas ele sabia e tinha o que era preciso para conseguir a vaga.
Enfim foi chamado, após 4h de espera. Direcionava-se a um cubículo que a secretária teve a ousadia de chamar de sala. Lá estava Elizabete, uma mulher muito bem vestida, de face tão linda que poderia ser facilmente confundida com uma pintura.
Ao sentar-se Héliote percebe o olhar de reprovação de sua entrevistadora devido aos seus trajes evidentemente. Mas antes mesmo que ela ousasse abrir a boca para iniciar as perguntas, Héliote despontou a falar:
- Sei que você deve estar se perguntando a razão pela qual eu não estou sentado na sua frente com um belo terno e uma bonita gravata. Acredito também que as últimas 4h tenham sido um tanto quanto desgastantes diante de tantas respostas sem um pingo de criatividade, sem nada de original. Bem, estou aqui hoje na sua frente a usar estes trajes por acreditar que você não estaria interessada em como eu me visto, mas sim na minha competência profissional. E é exatamente por isso que eu sou perfeito para a vaga. A maioria, se não todos aqueles caras lá fora estão vestindo um terno pela primeira vez hoje com o intuito de tentar impressionar com sua aparência bem trajada e fina. Mas eu me pergunto, é realmente isso que esta empresa precisa? Seria de alguém que faz um estereótipo de fino e educado. De alguém que finge ser o que não é? Acredito que não. E é por isso que não estou alinhado como os demais, por que sei que vocês não estariam interessados no meu padrão estilístico, mas sim, nas minhas competências e qualidades profissionais. É por isso que eu pretendo impressionar-los com o meu esforço e trabalho e não com supérfluas aparências.
Elizabete fitou Héliote nos olhos durante alguns segundos, pegou o telefone e avisou a secretária:
- Pode despachar os demais concorrentes.
- Você é ousado meu jovem. Seu currículo impressiona de fato, e o seu perfil é no mínimo curioso. De fato demonstrou algo que os demais candidatos não conseguiram. A vaga é sua, passe no RH ao sair daqui e preencha os dados da ficha.
Héliote definitivamente havia impressionado. Não fazia idéia do quanto a sua cara de pau lhe foi útil. Mal vestido por falta de bom gosto, no entanto, servido de excelentes desculpas para tal.
A vaga era sua. Havia enfim entrado na empresa, poderia dar o próximo passo para a Trindade.
- Você agora será classificado como um civil. Sua primeira tarefa é infiltrar-se na empresa de engenharia Ohmega. Eles estão querendo candidatos para estágio. Trata-se de uma empresa muito conceituada e formal, que prima acima de tudo por um profissional competente. Sua primeira tarefa é impressionar o corpo seletor da entrevista e garantir a sua entrada. Após isso você receberá novas instruções. Não esqueça, eles são altamente criteriosos e buscam um profissional diferenciado. Elaboramos pra você um currículo com competências que podem ser comprovadas, caso queiram investigar. A sua entrevista é na segunda as 07h da manhã, esteja apresentável. Dispensado tenente.
Héliote fitava em sua casa o celular, relógio, caneta e novos óculos que recebera dos membros da Trindade. Ainda não havia processado muito bem tanta agitação e novidade, mas uma coisa era certa. Monótona certamente não seria mais a sua vida.
Na manhã de segunda Héliote apresentava-se na empresa Ohmega. Mais de 50 candidatos a brigar por uma única vaga. Todos a usarem terno e gravata. A maior formalidade possível. “esteja apresentável”, lembra-se Héliote dos dizeres do capitão, no entanto o máximo que conseguiu foi uma calça jeans com uma camisa pólo. Infelizmente o jovem aspirante não era o cara mais ligado em estética.
Os olhares cortantes e desdenhosos condenavam o candidato de trajes mais simples. Mas ele sabia e tinha o que era preciso para conseguir a vaga.
Enfim foi chamado, após 4h de espera. Direcionava-se a um cubículo que a secretária teve a ousadia de chamar de sala. Lá estava Elizabete, uma mulher muito bem vestida, de face tão linda que poderia ser facilmente confundida com uma pintura.
Ao sentar-se Héliote percebe o olhar de reprovação de sua entrevistadora devido aos seus trajes evidentemente. Mas antes mesmo que ela ousasse abrir a boca para iniciar as perguntas, Héliote despontou a falar:
- Sei que você deve estar se perguntando a razão pela qual eu não estou sentado na sua frente com um belo terno e uma bonita gravata. Acredito também que as últimas 4h tenham sido um tanto quanto desgastantes diante de tantas respostas sem um pingo de criatividade, sem nada de original. Bem, estou aqui hoje na sua frente a usar estes trajes por acreditar que você não estaria interessada em como eu me visto, mas sim na minha competência profissional. E é exatamente por isso que eu sou perfeito para a vaga. A maioria, se não todos aqueles caras lá fora estão vestindo um terno pela primeira vez hoje com o intuito de tentar impressionar com sua aparência bem trajada e fina. Mas eu me pergunto, é realmente isso que esta empresa precisa? Seria de alguém que faz um estereótipo de fino e educado. De alguém que finge ser o que não é? Acredito que não. E é por isso que não estou alinhado como os demais, por que sei que vocês não estariam interessados no meu padrão estilístico, mas sim, nas minhas competências e qualidades profissionais. É por isso que eu pretendo impressionar-los com o meu esforço e trabalho e não com supérfluas aparências.
Elizabete fitou Héliote nos olhos durante alguns segundos, pegou o telefone e avisou a secretária:
- Pode despachar os demais concorrentes.
- Você é ousado meu jovem. Seu currículo impressiona de fato, e o seu perfil é no mínimo curioso. De fato demonstrou algo que os demais candidatos não conseguiram. A vaga é sua, passe no RH ao sair daqui e preencha os dados da ficha.
Héliote definitivamente havia impressionado. Não fazia idéia do quanto a sua cara de pau lhe foi útil. Mal vestido por falta de bom gosto, no entanto, servido de excelentes desculpas para tal.
A vaga era sua. Havia enfim entrado na empresa, poderia dar o próximo passo para a Trindade.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
05 - Ohmega
Eram 6:00 da manhã e Héliote acordava para um novo dia. Acordou com o coração disparado, mal tinha despertado e seu cérebro já sabia que aquele realmente seria um novo dia, afinal de contas ali começava a continuação de uma grande reviravolta na sua vida.
Arrumou-se ansiosamente e por mais estranho que pareça lembrou-se da sensação dos primeiros dias de aula, que enfrentou quando ainda morava em uma casa de amparo às crianças órfãs, e em sua cabeça veio os sorrisos de Júlia e Marcos. Junto a ela veio uma pequena pontada na cabeça, não ligou para esse fato e por fim vestiu a sua pólo de sempre e saiu.
Chegar à Ohmega é no mínimo um deslumbre a visão – Pensou Héliote. O lugar era imenso, afastando-se da cidade pela rodovia viam-se apenas planícies e repentinamente um muro começava. Começava e continuava. Estendia-se por uns 15 km ao longo a rodovia, até chegar ao portão principal, dali em diante o muro perdia-se de vista. Ao chegar na guarita principal, que era inclusive fortemente defendida por um guarda carrancudo, Héliote foi questionado:
- Imprensa ou visitante? - perguntou o guarda.
- Estagiário – respondeu Héliote.
O guarda fez uma cara de que tentava se lembrar de algo e falou:
- Você deve ser novo. Crachá?
- Ainda não possuo, fui aprovado ontem. Eles realmente levaram a sério essa história de início imediato.
- Espere aí então, vou checar – O guarda pegou seu walk-talk falou uns códigos não inteligíveis, escutou outros da mesma forma e disse:
- Entrada liberada – E magicamente a cancela se abriu para Héliote.
Passando pelo portão principal da Ohmega, você entra em uma rua perpendicular ao sentido da avenida. Na verdade a rua mais parecia uma avenida, de tão larga que era. Ao largo dela, há árvores que alamedam o caminho, e arbustos menores, bem podados e floridos. As árvores não tampavam a visão dos lados, então era possível ver grandes complexos, todos bem distantes. Mas o que impressiona mesmo é o fim da avenida de entrada.
Com um enorme estacionamento, um portal de entrada imenso com madeira escura, o prédio de sete andares e por volta de 400 metros de comprimento é o que se pode se chamar de imponente. Completamente revestido por – pelo que se pareceu a Héliote – uma única peça de vidro, refletia uma matriz de cores interessante, indo do verde ao azul. Héliote entrou na recepção, e logo então, uma mulher loira e de rosto cheio, perguntou:
- Pois não?
- Bom dia, vou começar meu estágio hoje, onde é o setor de Projetos?
- Bem vindo Héliote, estávamos aguardando você. Antes de ir ao seu setor você irá passar por uma ambientação. Espere aqui na recepção que irei chamar o responsável – Ela disse de um modo quando quase instantâneo, o que pareceu para Héliote excesso de treinamento.
Héliote ficou o que lhe pareceu ter sido uns 15 minutos aguardando, quando chegou uma mulher que aparentava ter uns 35 anos, não muito bonita, com um ar simpático que parecia meio forçado.
- Bom dia. Prazer, Eliza.
- Prazer, Héliote.
- Vamos dar uma volta pelo complexo Ohmega. Tem um carro nos esperando – Engatou Eliza, após a apresentação.
Passaram por várias construções na entrada, enquanto Eliza explicava á Héliote do que cada uma se tratava. Enquanto iam se afastando da entrada, cada vez a segurança do local ia aumentando.
Chegaram a um complexo que lembrava um hangar de avião, grande, revestido com folhas de aço, e teto em arco até tocar o chão. Mas esse tinha um cerca independente, guaritas de vigias ao longo dela com guardas fortemente armados. Agora que Héliote reparara nisso, aquilo lhe pareceu mais uma fortaleza militar, do que qualquer outra coisa.
- Por que a segurança é tão forte nesse e em outros complexos específicos? – Perguntou Héliote à Eliza. Heliote notou Eliza e o motorista trocarem olhares de soslaio.
- A Ohmega trabalha com tecnologia avançada, precisamos defender nossos trunfos de negócio – Respondeu Eliza.
- Mas é necessá... – Héliote não conseguiu terminar a frase, pois nesse momento Eliza o interrompeu.
- Termina aqui nossa apresentação das dependências da Ohmega, agora você irá conhecer o seu setor.
Quando Héliote ia falar algo mais, o seu celular toca. Era o capitão Gonçalves.
-Alô?
Arrumou-se ansiosamente e por mais estranho que pareça lembrou-se da sensação dos primeiros dias de aula, que enfrentou quando ainda morava em uma casa de amparo às crianças órfãs, e em sua cabeça veio os sorrisos de Júlia e Marcos. Junto a ela veio uma pequena pontada na cabeça, não ligou para esse fato e por fim vestiu a sua pólo de sempre e saiu.
Chegar à Ohmega é no mínimo um deslumbre a visão – Pensou Héliote. O lugar era imenso, afastando-se da cidade pela rodovia viam-se apenas planícies e repentinamente um muro começava. Começava e continuava. Estendia-se por uns 15 km ao longo a rodovia, até chegar ao portão principal, dali em diante o muro perdia-se de vista. Ao chegar na guarita principal, que era inclusive fortemente defendida por um guarda carrancudo, Héliote foi questionado:
- Imprensa ou visitante? - perguntou o guarda.
- Estagiário – respondeu Héliote.
O guarda fez uma cara de que tentava se lembrar de algo e falou:
- Você deve ser novo. Crachá?
- Ainda não possuo, fui aprovado ontem. Eles realmente levaram a sério essa história de início imediato.
- Espere aí então, vou checar – O guarda pegou seu walk-talk falou uns códigos não inteligíveis, escutou outros da mesma forma e disse:
- Entrada liberada – E magicamente a cancela se abriu para Héliote.
Passando pelo portão principal da Ohmega, você entra em uma rua perpendicular ao sentido da avenida. Na verdade a rua mais parecia uma avenida, de tão larga que era. Ao largo dela, há árvores que alamedam o caminho, e arbustos menores, bem podados e floridos. As árvores não tampavam a visão dos lados, então era possível ver grandes complexos, todos bem distantes. Mas o que impressiona mesmo é o fim da avenida de entrada.
Com um enorme estacionamento, um portal de entrada imenso com madeira escura, o prédio de sete andares e por volta de 400 metros de comprimento é o que se pode se chamar de imponente. Completamente revestido por – pelo que se pareceu a Héliote – uma única peça de vidro, refletia uma matriz de cores interessante, indo do verde ao azul. Héliote entrou na recepção, e logo então, uma mulher loira e de rosto cheio, perguntou:
- Pois não?
- Bom dia, vou começar meu estágio hoje, onde é o setor de Projetos?
- Bem vindo Héliote, estávamos aguardando você. Antes de ir ao seu setor você irá passar por uma ambientação. Espere aqui na recepção que irei chamar o responsável – Ela disse de um modo quando quase instantâneo, o que pareceu para Héliote excesso de treinamento.
Héliote ficou o que lhe pareceu ter sido uns 15 minutos aguardando, quando chegou uma mulher que aparentava ter uns 35 anos, não muito bonita, com um ar simpático que parecia meio forçado.
- Bom dia. Prazer, Eliza.
- Prazer, Héliote.
- Vamos dar uma volta pelo complexo Ohmega. Tem um carro nos esperando – Engatou Eliza, após a apresentação.
Passaram por várias construções na entrada, enquanto Eliza explicava á Héliote do que cada uma se tratava. Enquanto iam se afastando da entrada, cada vez a segurança do local ia aumentando.
Chegaram a um complexo que lembrava um hangar de avião, grande, revestido com folhas de aço, e teto em arco até tocar o chão. Mas esse tinha um cerca independente, guaritas de vigias ao longo dela com guardas fortemente armados. Agora que Héliote reparara nisso, aquilo lhe pareceu mais uma fortaleza militar, do que qualquer outra coisa.
- Por que a segurança é tão forte nesse e em outros complexos específicos? – Perguntou Héliote à Eliza. Heliote notou Eliza e o motorista trocarem olhares de soslaio.
- A Ohmega trabalha com tecnologia avançada, precisamos defender nossos trunfos de negócio – Respondeu Eliza.
- Mas é necessá... – Héliote não conseguiu terminar a frase, pois nesse momento Eliza o interrompeu.
- Termina aqui nossa apresentação das dependências da Ohmega, agora você irá conhecer o seu setor.
Quando Héliote ia falar algo mais, o seu celular toca. Era o capitão Gonçalves.
-Alô?
terça-feira, 20 de julho de 2010
06 - O estágio
Chovia continuamente durante a madrugada. O termômetro indicava 39,5°C, deitada na cama Julia suava e delirava debatendo-se incontrolavelmente.
Em meio aos seus devaneios estranhas imagens apareciam, paralelas, fitadas como flashes. Rostos dos quais Julia nunca havia visto antes, lugares estranhos, ora coloridos... Ora tempestuosos. Imagens alucinógenas que curto circuitavam um cérebro febril. A madrugada arrastou-se naquele dia.
O sol resplandecia aquela manhã. Com uma forte enxaqueca, Julia põe o óculos e vaga ainda sonolenta a caminho da faculdade. Estudante do ultimo ano de administração. Morava sozinha em um apartamento dado pelos pais adotivos, executivos donos de empresas de engenharia. Desde cedo educaram sua pequena filha que um dia seria o seu dever tomar conta do legado da família, e que quando necessário fosse entenderia perfeitamente o significado desta difícil tarefa.
Aplicada aos estudos, era uma das alunas mais talentosas do curso e também uma das mais bonitas. O seu sorriso encantador era hipnotizante, seus cabelos loiros ao vento eram letais a qualquer mortal de calças. Infelizmente relações amorosas não pareciam ser o forte de Julia, não por falta de pretendentes é claro. Buques de rosas, caixas de bombons, textos e declarações das mais variadas e discutíveis formas de amor a primeira vista. Ela já conhecia todas essas. Habituada a chamar atenção desde a infância, não tardou para fechar-se em seu mundo e não dar tanta importância a tantos candidatos a possíveis donos de seu coração.
Sempre bem vestida e educada. Julia descia de seu belo carro importado dirigindo-se ao departamento de seu curso. Ainda com fortes dores de cabeça privou-se de encontrar com os amigos, não tinha disposição pra conversar muito aquela manhã.
- Você precisa completar o seu estágio curricular, temos aqui algumas opções de empresas que precisam de estagiários. Dizia educadamente a atendente do departamento.
- Obrigada, mas se possível prefiro estagiar na empresa dos meus pais. Respondia Julia impaciente.
- Tudo bem, preencha a documentação necessária e não esqueça do seu relatório ao término. Dispensava enfim a atendente.
Julia não tinha aula, havia ido justamente buscar os documentos necessários para apresentar a empresa dos seus pais e cumprir seu estágio curricular. Eles faziam questão de que ela começasse com funções normais e fosse crescendo na empresa aos poucos, eles não tinham em mente direcioná-la diretamente a chefia.
A Ohmega era uma empresa que prezava costumes hierárquicos e frisava a competência de seus profissionais. Julia mais do que ninguém sabia perfeitamente disso, pois cresceu ouvindo seus pais repetirem o mesmo discurso. Sabia que não teria moleza em seu estágio, trabalharia duramente como qualquer outro estagiário. Sem privilégios.
No entanto, não naquele dia. Suas dores de cabeça foram ficando mais fortes, e ela voltou ao seu apartamento para descansar. Os segundos martelavam e amplificavam as dores, pontadas cada vez mais fortes, continuas, massacrantes. Ela teve tempo somente de abrir a porta e desmaiar em seguida. Em um transe profundo, Julia vagava perdida em seus pensamentos e dores. Não tratava-se de uma dor qualquer, era algo diferenciado, sempre os mesmos flashes, os mesmos rostos, os mesmos cenários...
Oitavo andar indicava o elevador, Marcos ao sair depara-se com a amiga desmaiada a porta de apartamento.
-Julia!!!! Gritava e corria Marcos em direção a amiga.
Em meio aos seus devaneios estranhas imagens apareciam, paralelas, fitadas como flashes. Rostos dos quais Julia nunca havia visto antes, lugares estranhos, ora coloridos... Ora tempestuosos. Imagens alucinógenas que curto circuitavam um cérebro febril. A madrugada arrastou-se naquele dia.
O sol resplandecia aquela manhã. Com uma forte enxaqueca, Julia põe o óculos e vaga ainda sonolenta a caminho da faculdade. Estudante do ultimo ano de administração. Morava sozinha em um apartamento dado pelos pais adotivos, executivos donos de empresas de engenharia. Desde cedo educaram sua pequena filha que um dia seria o seu dever tomar conta do legado da família, e que quando necessário fosse entenderia perfeitamente o significado desta difícil tarefa.
Aplicada aos estudos, era uma das alunas mais talentosas do curso e também uma das mais bonitas. O seu sorriso encantador era hipnotizante, seus cabelos loiros ao vento eram letais a qualquer mortal de calças. Infelizmente relações amorosas não pareciam ser o forte de Julia, não por falta de pretendentes é claro. Buques de rosas, caixas de bombons, textos e declarações das mais variadas e discutíveis formas de amor a primeira vista. Ela já conhecia todas essas. Habituada a chamar atenção desde a infância, não tardou para fechar-se em seu mundo e não dar tanta importância a tantos candidatos a possíveis donos de seu coração.
Sempre bem vestida e educada. Julia descia de seu belo carro importado dirigindo-se ao departamento de seu curso. Ainda com fortes dores de cabeça privou-se de encontrar com os amigos, não tinha disposição pra conversar muito aquela manhã.
- Você precisa completar o seu estágio curricular, temos aqui algumas opções de empresas que precisam de estagiários. Dizia educadamente a atendente do departamento.
- Obrigada, mas se possível prefiro estagiar na empresa dos meus pais. Respondia Julia impaciente.
- Tudo bem, preencha a documentação necessária e não esqueça do seu relatório ao término. Dispensava enfim a atendente.
Julia não tinha aula, havia ido justamente buscar os documentos necessários para apresentar a empresa dos seus pais e cumprir seu estágio curricular. Eles faziam questão de que ela começasse com funções normais e fosse crescendo na empresa aos poucos, eles não tinham em mente direcioná-la diretamente a chefia.
A Ohmega era uma empresa que prezava costumes hierárquicos e frisava a competência de seus profissionais. Julia mais do que ninguém sabia perfeitamente disso, pois cresceu ouvindo seus pais repetirem o mesmo discurso. Sabia que não teria moleza em seu estágio, trabalharia duramente como qualquer outro estagiário. Sem privilégios.
No entanto, não naquele dia. Suas dores de cabeça foram ficando mais fortes, e ela voltou ao seu apartamento para descansar. Os segundos martelavam e amplificavam as dores, pontadas cada vez mais fortes, continuas, massacrantes. Ela teve tempo somente de abrir a porta e desmaiar em seguida. Em um transe profundo, Julia vagava perdida em seus pensamentos e dores. Não tratava-se de uma dor qualquer, era algo diferenciado, sempre os mesmos flashes, os mesmos rostos, os mesmos cenários...
Oitavo andar indicava o elevador, Marcos ao sair depara-se com a amiga desmaiada a porta de apartamento.
-Julia!!!! Gritava e corria Marcos em direção a amiga.
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