Chovia continuamente durante a madrugada. O termômetro indicava 39,5°C, deitada na cama Julia suava e delirava debatendo-se incontrolavelmente.
Em meio aos seus devaneios estranhas imagens apareciam, paralelas, fitadas como flashes. Rostos dos quais Julia nunca havia visto antes, lugares estranhos, ora coloridos... Ora tempestuosos. Imagens alucinógenas que curto circuitavam um cérebro febril. A madrugada arrastou-se naquele dia.
O sol resplandecia aquela manhã. Com uma forte enxaqueca, Julia põe o óculos e vaga ainda sonolenta a caminho da faculdade. Estudante do ultimo ano de administração. Morava sozinha em um apartamento dado pelos pais adotivos, executivos donos de empresas de engenharia. Desde cedo educaram sua pequena filha que um dia seria o seu dever tomar conta do legado da família, e que quando necessário fosse entenderia perfeitamente o significado desta difícil tarefa.
Aplicada aos estudos, era uma das alunas mais talentosas do curso e também uma das mais bonitas. O seu sorriso encantador era hipnotizante, seus cabelos loiros ao vento eram letais a qualquer mortal de calças. Infelizmente relações amorosas não pareciam ser o forte de Julia, não por falta de pretendentes é claro. Buques de rosas, caixas de bombons, textos e declarações das mais variadas e discutíveis formas de amor a primeira vista. Ela já conhecia todas essas. Habituada a chamar atenção desde a infância, não tardou para fechar-se em seu mundo e não dar tanta importância a tantos candidatos a possíveis donos de seu coração.
Sempre bem vestida e educada. Julia descia de seu belo carro importado dirigindo-se ao departamento de seu curso. Ainda com fortes dores de cabeça privou-se de encontrar com os amigos, não tinha disposição pra conversar muito aquela manhã.
- Você precisa completar o seu estágio curricular, temos aqui algumas opções de empresas que precisam de estagiários. Dizia educadamente a atendente do departamento.
- Obrigada, mas se possível prefiro estagiar na empresa dos meus pais. Respondia Julia impaciente.
- Tudo bem, preencha a documentação necessária e não esqueça do seu relatório ao término. Dispensava enfim a atendente.
Julia não tinha aula, havia ido justamente buscar os documentos necessários para apresentar a empresa dos seus pais e cumprir seu estágio curricular. Eles faziam questão de que ela começasse com funções normais e fosse crescendo na empresa aos poucos, eles não tinham em mente direcioná-la diretamente a chefia.
A Ohmega era uma empresa que prezava costumes hierárquicos e frisava a competência de seus profissionais. Julia mais do que ninguém sabia perfeitamente disso, pois cresceu ouvindo seus pais repetirem o mesmo discurso. Sabia que não teria moleza em seu estágio, trabalharia duramente como qualquer outro estagiário. Sem privilégios.
No entanto, não naquele dia. Suas dores de cabeça foram ficando mais fortes, e ela voltou ao seu apartamento para descansar. Os segundos martelavam e amplificavam as dores, pontadas cada vez mais fortes, continuas, massacrantes. Ela teve tempo somente de abrir a porta e desmaiar em seguida. Em um transe profundo, Julia vagava perdida em seus pensamentos e dores. Não tratava-se de uma dor qualquer, era algo diferenciado, sempre os mesmos flashes, os mesmos rostos, os mesmos cenários...
Oitavo andar indicava o elevador, Marcos ao sair depara-se com a amiga desmaiada a porta de apartamento.
-Julia!!!! Gritava e corria Marcos em direção a amiga.
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