Era um fim de noite estranho. O vento trazia o cheiro do medo, a lua acobertada por densas nuvens compactuava com uma sinistra escuridão. Deitado em sua cama, Héliote suava desesperadamente inquieto com o sonho que o perturbava naquela longínqua madrugada.
Os primeiros raios de sol que atravessavam a janela penetravam em uma cama vazia. Héliote estava esparramado ao chão, meio zonzo com o despertar e de olhos lacrimejantes diante de tanta luz, que por sinal ele odiava. Partiu em sua jornada normal. Logo pela manhã foi para o trabalho, saia somente as 18h, logo após ia para aula da faculdade. Costumava chegar a sua casa às 23h, incondicionalmente cansado. Pra completar ainda tinha que organizar materiais para o trabalho e responder alguns exercícios da faculdade. Uma rotina estressante que logo foi sendo absorvida e tornando-se natural. Em meio a tantos afazeres antes de dormir, Héliote ainda arrumava tempo para sentar a beira de sua cama com os olhos a fitarem a noite, às vezes estreladas, em longas e arrastadas madrugadas. Sempre em companhia do seu violão, caderno e caneta. Tinha ali o seu momento, era como se deixasse de fazer parte do mundo e penetrasse em um exclusivamente seu, em meio aos seus desconexos pensamentos ocultos.
“ Que o clarear do sol que virá, aqueça o meu peito gélido e me afaste dessa claustrofóbica sensação de vazio e solidão”
Assim ele finalizava mais um de seus poemas. Após arrumar suas coisas e aprontar-se para dormir, quis dar uma última olhada na noite estrelada. A busca pela lua foi sem sucesso, ela estava coberta por nuvens. No entanto foi algo diferente que chamou a sua atenção. Uma estrela de brilho diferente, mais intenso, chegando quase a ser hipnotizador. Ao mesmo tempo a cabeça de Héliote começou a doer de forma desumana, como se estivessem a penetrar em seu cérebro um objeto cortante que o perfurava lentamente. Héliote morava sozinho em um apartamento, e seus gritos de dor foram abafados pelas grossas paredes de seu quarto. Sem mais forças para resistir a tamanho sofrimento, caiu ao chão inconsciente. Voltava ele a suar e a ter o mesmo sonho da noite anterior. Felizmente era sexta-feira.
10:00 am, marcava o despertador. Era sábado, dia de descanso. Héliote levantava vagarosamente do chão e tratava de recompor-se ir ao encalço de sua comida matinal. Péssimo cozinheiro, sobrevivia sozinho graças aos produtos industrializados que geralmente ficavam prontos em minutos. Ainda a terminar o café da manhã o seu celular toca. Era um amigo o lembrando que ele deveria comparecer em um almoço de aniversário. Feliz com a notícia, pois não precisaria pensar no que fazer para comer, Héliote pega o seu carro e segue em rumo à comida grátis e um pouco de diversão.
Bebidas, música alta, mulheres e muita bagunça. A casa de Marcos, seu amigo de infância, era tudo que ele precisava para relaxar. Em rodinhas de amigos e conversas bobas, Héliote deparava-se com uma de suas cenas favoritas. A doce visão da mais bela mulher que ele já vira, Melissa. Em sua mente era como se ela viesse a caminhar em uma passarela, trombetas ao lado a tocar, passarinhos a cantar e ela a sorrir. Tal visão do paraíso foi desgraçadamente desfeita, pois logo em seguida o seu namorado, Vitor, apareceu e Héliote teve que voltar a concentrar-se nas conversas bobas dos amigos.
Melissa e Vitor eram dois médicos, conheceram-se na faculdade junto com o Marcos. Formaram-se juntos. Simpáticos e lindos, eram queridos por todos na casa, até mesmo por Júlia. Uma garota inteligente, de cabelos loiros e um belo corpo. Facilmente reconhecida por seu belo sorriso e personalidade forte. Ela era amiga de Héliote há muitos anos, assim como Marcos - alguns amigos já comentavam que ela distribuiria olhares apaixonados a Héliote, mas isso nunca foi comprovado -, eram um trio curioso. Amigos de infância, nascidos na mesma cidade, no mesmo dia, com um ano de diferença de um para o outro. Primeiro nasceu Marcos, depois Júlia e por último Héliote. Ambos órfãos aos 7 anos e apoiados um ao outro desde então.
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